'O
BRASIL PRECISA DE MAIS TRANSPARÊNCIA SOBRE RENDA E RIQUEZA'
LUIZ
GUILHERME GERBELLI - O Estado de S.Paulo
28
Novembro 2014 | 02h 04
Para
economista, falta de transparência pode gerar desconfiança na economia
O economista francês
Thomas Piketty entrou no centro da discussão econômica mundial ao lançar o
livro O Capital no Século XXI. Nele, o autor mostrou um aumento da concentração
de renda nas economias centrais. A obra fez de Piketty um dos economistas mais
conhecidos e populares mundialmente, embora também tenha recebido críticas. A
obra recém-lançada não analisa a situação brasileira, mas nem por isso
despertou menos interesse. Depois da tiragem inicial de 50 mil cópias, outras
duas de 30 mil foram encomendadas. Apesar da piora do cenário, Piketty diz ser
necessário convencer grande parte da sociedade que a globalização trabalha para
todo mundo. "Há um risco de não termos boas políticas para convencer
grande parte da sociedade de que a globalização pode trabalhar para elas, para
todos, e não apenas para as multinacionais", afirmou. A seguir, os
principais trechos da entrevista concedida ao Estado.
Como o sr. analisa a
repercussão do livro tanto no Brasil como internacionalmente?
Tentei escrever um livro acessível, que pudesse ser
lido por qualquer um. Seu sucesso mostra que as pessoas se importam com os
problemas econômicos e não querem deixar que outros decidam essas questões por
elas. Eu acredito que o livro esteja colaborando para isso, com as pessoas
podendo fazer sua própria cabeça sobre renda, riqueza e capital. São questões
muito importantes para serem deixadas apenas para os economistas.
O sr. acredita que é possível
que o livro traga essa mudança?
Acredito no poder do livro, das ideias. Creio que
ele pode contribuir para transformar a opinião pública - mas é apenas uma parte
da influência. A democratização do conhecimento econômico é um importante passo
se quisermos uma sociedade mais democrática.
Estamos distantes dessa
sociedade?
Nós fizemos alguns progressos. A pobreza foi
reduzida, e a desigualdade está menor em alguns países do que era há um século.
Mas alguns desses progressos são frágeis e dependem de políticas e instituições.
Há um risco se não adotarmos as políticas corretas. A principal mensagem do
livro é que é preciso mais transparência com a riqueza, para podermos adaptar
as políticas e instituições. Seria um grande erro deixar que as forças do
mercado resolvessem o problema para nós.
Embora não tenha estudado a
situação brasileira, alguns dados mostram uma piora como o aumento da extrema
pobreza. Como o sr. analisa o Brasil?
A pobreza foi muito reduzida no Brasil. E isso foi
bom. Mas a desigualdade ainda é extremamente grande. O Brasil continua um país
muito desigual, e provavelmente há mais desigualdade no Brasil do que se pode
medir pelas estatísticas oficias. Eu devo mencionar que a razão pela qual nós
não incluímos o Brasil na nossa base de dados é que, até agora, foi impossível
acessar os dados de Imposto de Renda no País. Acredito que o Brasil precisa de
mais transparência sobre renda e riqueza. É muito importante que haja acesso
mais livre às estatísticas de Imposto de Renda para que se possa entender melhor
qual é a diferença social entre os grupos. Isso também pode ajudar a trazer
mais confiança no governo.
Mas o sr. acredita que os
brasileiros que estão no topo da pirâmide gostariam que esses dados se
tornassem públicos?
Talvez eles não gostassem. Isso é parte do problema.
Às vezes, as pessoas têm medo da transparência. Mas, no fim das contas, todos
são beneficiados pela transparência. Se não criamos formas de confiar no
governo e no sistema de tributação, todos perdem. Se nós quisermos manter a
globalização, é importante mostrar que todos são beneficiados por ela. A falta
de transparência pode gerar uma desconfiança na economia.
O sistema tributário do Brasil
taxa mais o consumo do que a renda. Temos uma das mais altas taxa de juros. É
fácil para o Brasil reduzir a desigualdade?
O sistema tributário do Brasil não é muito
progressivo. De muitas maneiras, é regressivo, porque a taxação indireta é
muito forte - o que faz com que os mais pobres e a classe média paguem pesadas
taxas no consumo. Acredito que é possível reduzir a taxação indireta e aumentar
a taxação progressiva na renda e na propriedade. Se olharmos para a taxação do
Imposto de Renda, o topo recolhido não é muito alto no Brasil, cerca de 27%. A
taxa sobre a tributação em propriedade também é baixa, assim como nos casos de
herança. Acredito que o Brasil tem um caminho para ter um sistema de tributação
mais progressivo, o que é uma parte da solução para reduzir a desigualdade no
País.
E existem outras políticas?
As outras políticas são as educacionais e de salário
mínimo. Todas essas políticas são importantes e complementares.
A sociedade brasileira já
reclama dos altos impostos. É fácil mudar a lógica para tributar mais renda?
É sempre complicado construir a confiança no sistema
de tributação. Leva muito tempo. Mas é importante ter mais transparência com o
objetivo de ter um progresso. É importante mostrar para todo mundo quanto os
grupos estão pagando.
Por quê?
De outra maneira, as pessoas sentem que estão pagando
mais do que outros grupos. Em particular, os mais pobres e a classe média
acreditam que algumas pessoas são mais ricas e pagam menos impostos. Então, é
muito difícil ter confiança num sistema desse e fazer com que as pessoas
concordem em pagar mais por escolas, hospitais e serviços públicos. Se você
quer criar mais consentimento coletivo para pagar mais pelo serviço público, é
muito importante ter mais transparência e mostrar quanto as pessoas estão
pagando. Como disse, no Brasil, até agora, é impossível acessar qualquer
informação de Imposto de Renda, e é muito difícil criar confiança se os dados
não são revelados.
Os desafios das economias que o
sr. analisa no livro são os mesmos que estão presentes na economia do Brasil?
Algumas soluções são as mesmas em todos os países,
mas algumas são diferentes. Nos Estados Unidos, o aumento da desigualdade foi
maior; na Europa, foi menor, e o problema europeu se dá mais em como organizar
a União Europeia e a zona do euro.
Como assim?
Na Europa, temos um sério problema. É muito difícil
ter uma moeda única, com 18 diferentes déficits públicos. Então, é um problema
específico para a Europa. Na China, é muito diferente. O governo, até agora,
não quer ter mais transparência no sistema de taxação. Falando de uma forma
geral, os países emergentes têm muito a perder com a falta de transparência dos
dados, mas muito para ganhar com mais transparência e informações mais
completas sobre renda e riqueza.
Se nada mudar, e a desigualdade
continuar crescendo, o que pode acontecer?
O principal risco para mim é que, se a gente não
resolver os nossos problemas domésticos de forma pacífica, podem surgir
soluções consideradas nacionalistas. De forma geral, quando não se encontram
boas soluções para as questões domésticas, é muito fácil as pessoas acharem
culpados, como trabalhadores estrangeiros e outros países. E, se não tivermos
boas políticas para convencer grande parte da sociedade de que a globalização
pode trabalhar para todos, há um risco de que grandes grupos da sociedade busquem
soluções nacionalistas. E isso pode ser ruim, porque eu acredito na
globalização, que eu acho que trouxe ganhos positivos.
O sr. vê um sinal dessas
soluções extremistas, como os partidos radicais ganhando forma na Europa?
Sim. É um sinal. Na França, o partido extremista
está indo muito bem. Na Europa, as pessoas estão tentando culpar outros países.
A França e a Itália estão culpando a Alemanha, que está culpando outras
economias. É uma situação muito perigosa. Eu sou a favor de mais união política
e fiscal entre os países da Europa. Mas os governos da região não estão fazendo
propostas, mas apenas esperando a situação melhorar. Já em outras partes do
mundo há movimentos de antiglobalização. Às vezes, eu posso entender. Acredito
que, se não colocarmos as políticas corretas para fazer todos se beneficiarem
da globalização, haverá um risco.
Diante dessa piora, o que
aconteceu com a sociedade de bem-estar social da Europa, que sempre serviu de
modelo para o mundo?
Esse modelo ainda continua existindo e ainda é uma
inspiração para o futuro, mas precisa ser reformado e modernizado. O sistema de
pensão na França, por exemplo, é extremamente complexo e foi construído por
partes. É preciso simplificá-lo, mas não desmantelá-lo, e sim torná-lo mais
eficiente e produtivo. Acredito que é possível reformar o sistema para fazer
esse estado de bem-estar social ainda melhor. O problema não é desmantelar esse
modelo, mas torná-lo mais universal. É preciso adaptar os projetos. É importante
mostrar que reformar o Estado de bem-estar social pode ser uma forma de
melhorá-lo.