terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Princípio da Responsabilidade, de Hans Jonas (resenha) - Blog do Felipe Pimenta

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O Princípio da Responsabilidade, de Hans Jonas (resenha)


Desde o século XIX, século do otimismo e da técnica, e tendo seu auge no século XX, o avanço da civilização Ocidental produziu uma enorme “fé” secularizada nos poderes do homem e um progressismo bastante doentio. O livro do filósofo alemão Hans Jonas O Princípio Responsabilidade, escrito em 1979, no fundo é uma grande denúncia contra qualquer utopia progressista, seja capitalista ou comunista.
Não há dúvidas de que para que haja qualquer ideia de progresso existe a necessidade de que o Ser exista, pois Jonas não cansa de afirmar que a vida é “um não enfático ao não-ser”. Sem qualquer otimismo raso e mesmo reconhecendo que doutrinas filosóficas pessimistas são realmente difíceis de refutar, Jonas afirma que a pergunta radical e de origem teológica feita por Leibniz “Por que existe alguma coisa ao invés do nada?” já garante, na mesma medida que o Gênesis e o Timeu de Platão, que o mundo seja bom, pois o existir é preferível ao não-existir. Muito provavelmente sem essa visão religiosa platônico-mosaica, que Jonas não esconde que prefere, a ética da responsabilidade já estaria comprometida seriamente.
O próprio sentido do princípio responsabilidade é uma alteração do imperativo categórico kantiano, isso porque Jonas ensina que Kant, e outras teorias éticas desde a Antiguidade, estavam basicamente preocupadas com o indivíduo somente, já o seu novo princípio estende-se a toda humanidade, e esse imperativo passa a ser: “age de maneira que tuas ações não comprometam a existência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”. Isso é necessário porque uma nova civilização tecnológica implica que certas ações humanas possam comprometer o futuro da humanidade e dos seres que ainda estão por vir. Hans Jonas é enfático ao afirmar que o indivíduo isolado pode até negar-se a trazer filhos ao mundo, mas a humanidade como um todo não tem o direito a um suicídio coletivo.
Todo o texto do livro de Jonas aborda de uma maneira um tanto breve e superficial a questão do otimismo versus o pessimismo, pois isso vai além de uma doutrina como o marxismo. Digo isso porque Jonas acerta ao afirmar que o marxismo é filho direto- e o mais radical- do ideal de Francis Bacon de uma luta eterna do homem contra a natureza para extrair dela seus segredos. No fundo a liberdade marxista é destrutiva não somente contra a natureza, pela qual Marx e seus seguidores não demonstram qualquer compreensão, mas também contra os valores Ocidentais, de cujos valores os marxistas desconfiam profundamente. E mais: Jonas também denuncia que o comunismo marxista e todo progressismo esconde seu pessimismo sob o véu de um “otimismo” contraditório, pois quem quer melhorar o mundo a qualquer preço é porque está pessimista ao extremo em relação à humanidade atual.
É muito interessante a crítica que Jonas faz ao capitalismo e comunismo contemporâneos como a toda civilização tecnológica atual. Todos os avanços na criação de máquinas e aparelhos que possibilitaram uma expansão notável da produção, e que foram endeusadas por todos, mas especialmente os marxistas, terminaram por reduzir a carência histórica da humanidade por bens de consumo e alimentos, porém geraram ironicamente uma notável necessidade de trabalho. Tudo ficou mais acessível, mas as atividades que existiam anteriormente foram extintas, lançando milhões ao desemprego, de maneira que tanto as sociedade capitalistas como comunistas tiveram que inventar “empregos”, em sua maioria sem sentido e entediantes, para preencherem a existência vazia da massa de desempregados.
Acredito que Jonas é muito feliz em mostrar as mazelas que a tecnologia atual trouxe ao Homem, mas ele não aborda é que os problemas atuais vão muito além da questão das máquinas ou do uso errado da ciência. O problema está também na perda do sentido de Transcendência que o Ocidente há 200 anos perdeu quase que completamente. Tudo isso está refletido em termos sociais, pois é certo que o progresso científico está nos matando, vide o controle de natalidade proporcionado pela pílula, sendo que os locais menos “científicos” do planeta, como certas partes do Oriente e da África são os que possuem maior expansão demográfica. O Ocidente definitivamente não possui a melhor resposta em termos do funcionamento da sociedade para garantir sua sobrevivência em longo prazo. Não há mais dinamismo ou esperança, o que é a negação da existência do Ser, preferível ao não-Ser, e de que o mundo tem um propósito e uma finalidade. Hans Jonas afirma de certa maneira que o Ocidente destrói a si mesmo quando tenta anular qualquer necessidade de sua população de trabalhar de maneira criativa por sua sobrevivência. A liberdade precisa da necessidade, não cansa escrever Jonas durante o livro. Uma população com excesso de benefícios e um longo tempo livre tem um potencial destrutivo ainda não testado em toda sua extensão até o tempo de Jonas, mas que hoje nós percebemos de maneira mais clara.

Agora, no fim dessa resenha, posso comparar duas tendências que são abordadas de maneira superficial no livro, mas que são importantíssimas para uma melhor compreensão do que está por vir: a entropia e a sintropia. A entropia acredita que o Universo está desde sempre em decadência e que tudo tende para o caos ao longo do tempo. O Universo está perdendo força. A Sintropia, ao contrário, afirma que o Universo caminha para uma ordem cada vez maior, e na concepção platônica isso significa que o homem, como imago Dei, é um auxiliar no estabelecimento dessa ordenação do Universo. Jonas até cita o platônico Whitehead, que afirmava “que o universo era um avanço para uma novidade sempre criativa”. Muito antes dele, Nicolau de Cusa, também um filósofo platônico, reagia contra o princípio de entropia de Aristóteles. Cusa, em seu livro De Concordantia Catholica, afirmava: “A entropia existe da mesma maneira que o Mal existe. Não possui um Ser positivo, e portanto existe apenas na mesma extensão que o homem, através do mau uso do seu livre-arbítrio, afasta-se do bem. Ao invés de ser uma lei do Universo, a entropia é uma consequência maligna da decisão do homem de decrescer sua capacidade de receber o Bem e a Graça de Deus.” Sem essa fé no futuro que o Ocidente e o próprio Brasil exibem, não existe maneira do princípio responsabilidade de Hans Jonas existir, como também a própria existência do homem sobre a Terra.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"

"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"

Por Marcos de Moura e Souza

Por 31 anos, José Pacheco esteve à frente da Escola da Ponte, centro educacional público da cidade do Porto, em Portugal, e ganhou admiradores e críticos dentro e fora de seu país. Sob sua direção, a instituição aboliu traços da escola tradicional: turmas definidas, séries, provas e aulas com um professor falando e escrevendo no quadronegro.

A Ponte virou referência e antítese do padrão escolar que Pacheco condena como sendo peça de museu do século XIX, mas que resiste no século XXI em muitos países.

Desde 2007, Pacheco mora no Brasil tem uma casa em Vargem Grande Paulista (SP) e trabalha em um projeto para o Ministério da Educação (MEC) com um grupo de educadores brasileiros para identificar iniciativas educacionais inovadoras pelo país. Aos 64 anos, dedica-se também a rodar o Brasil visitando escolas (a maioria delas públicas), centros de pesquisas e universidades para propor ideias a professores e diretores e estimular mudanças.

"Vou aonde me chamarem, aonde considere que possa ajudar a melhorar a qualidade da educação. Em vez de estar parado, como aposentado, vou me dedicando a isso", diz ele ao Valor.
Pacheco também é autor de livros e artigos e idealizador do projeto Âncora, entidade com ares de Escola da Ponte, em Cotia (SP).

Valor: Que resultado o senhor espera do trabalho que faz para o MEC?
José Pacheco: A "chamada pública" que o MEC lançou é uma oportunidade de mostrar que o Brasil tem tudo aquilo de que precisa para sair da dramática situação em que a educação se encontra. Conheço centenas de projetos extraordinários e que estão completamente no anonimato. O objetivo é dar visibilidade a essas iniciativas, mostrar a vitalidade, o potencial da escola brasileira, que muitos ignoraram.

Valor: Que conselhos o senhor oferece aos professores e diretores?
Pacheco: Proponho que as suas práticas sejam coerentes com o projeto escrito. Que não enveredem por falsas "alternativas", que não adotem modas pedagógicas, que se emancipem do ensino de faz de conta. Que concebam e desenvolvam novas construções sociais de aprendizagem, para substituição do modelo epistemológico do século XIX, ainda predominante nas escolas do século XXI.

Valor: Que modelo é esse tão resistente ao tempo e que o senhor combate?
Pacheco: É um modelo que nasce na Prússia militar: aula, turma e série é da Prússia militar. Os sinais sonoros de entrada e saída são desse período. Eram os toques de clarim, hoje são as sirenes, as sinetas. Na França, nos conventos, a sala de aula com a monja sozinha, que é a professora. Na Inglaterra da Revolução Industrial, a produção em série, dizendo que há "peças" que não aprendem, "peças" defeituosas. Tudo isso tem origem histórica e social. No Brasil, depois de acabarem com os jesuítas, houve um período de terra de ninguém e quando surge a Primeira República Benjamin Constant, militar cartesiano, positivista, segue modelo adotado no século XIX. Esse modelo ficou até hoje. Se fazia sentido no século XIX, hoje não faz. Estamos há 150 anos com esse modelo e o que ele produz é ignorância e infelicidade.

Valor: Por que esse modelo perdura?
Pacheco: A quem convém isso? Convém a políticos corruptos, ao voto de cabresto. Convém a todas as máfias que temos no Brasil. Convém porque vai mantendo o povo na ignorância. A educação é um ato político. É um ato de amor e um ato político.

Valor: Há espaço dentro do que está estabelecido pela legislação, pelo MEC, para que escolas públicas adotem modelos diferentes do modelo tradicional?
Pacheco: As centenas de escolas às quais me referi baseiam-se na lei, sobretudo no artigo 23 da Lei de Diretrizes e Bases, e organizam-se de outra maneira. Série e turma não fazem sentido nem têm fundamento científico nem legal. Se considerarmos que essas escolas sejam protótipos, elas são prova de que é possível no Brasil fazer essa mudança.

Valor: Falta dinheiro para que a educação seja melhor no Brasil?
Pacheco: Seria possível pagar excelentes salários a professores. A questão é que o desperdício é grande, a corrupção é grande no sistema educativo, isso significa que há secretários de Educação corruptos, diretores corruptos. Há despesas que não fazem sentido: uniforme, carteiras e classes de apoio, que não seriam necessárias se a educação fosse boa.

Valor: Dar aos alunos tablets, laptops como ferramentas para pesquisa e de atividades escolares é o futuro?
Pacheco: Colocar um laptop na mão de cada criança não significa que ela vai aprender ao ter contato com a informação. Para haver conhecimento, tem que haver transformação da informação em conhecimento. E isso acontece com a mediação de um educador. As pessoas têm de desenvolver currículo subjetivo, além do currículo formal. Um currículo que elas realizem suas vocações, que elas vão construindo seus projetos com o apoio das novas tecnologias e sendo avaliadas.

Valor: Países do norte da Europa e a Coreia do Sul são bem sucedidos em exames internacionais de desempenho dos alunos. O Brasil tem de se mirar neles?
Pacheco: Conheço esses países, conheço a educação que se faz nesses países. Ela já difere do modelo tradicional, mas apenas um pouco. Finlândia, Coreia do Sul e Japão aparecem nos primeiros lugares no Pisa e também estão entre os primeiros nos índices de suicídio juvenil. Há infelicidade grande, o que indica que muitas pessoas não têm projetos de vida, não aprendem a ser.