"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"
Por Marcos de Moura e Souza
Por 31 anos, José Pacheco esteve à frente da Escola da
Ponte, centro educacional público da cidade do Porto, em Portugal, e ganhou
admiradores e críticos dentro e fora de seu país. Sob sua direção, a
instituição aboliu traços da escola tradicional: turmas definidas, séries,
provas e aulas com um professor falando e escrevendo no quadronegro.
A Ponte virou referência e antítese do padrão escolar que
Pacheco condena como sendo peça de museu do século XIX, mas que resiste no
século XXI em muitos países.
Desde 2007, Pacheco mora no Brasil tem uma casa em Vargem
Grande Paulista (SP) e trabalha em um projeto para o Ministério da Educação
(MEC) com um grupo de educadores brasileiros para identificar iniciativas educacionais
inovadoras pelo país. Aos 64 anos, dedica-se também a rodar o Brasil visitando
escolas (a maioria delas públicas), centros de pesquisas e universidades para
propor ideias a professores e diretores e estimular mudanças.
"Vou aonde me chamarem, aonde considere que possa
ajudar a melhorar a qualidade da educação. Em vez de estar parado, como
aposentado, vou me dedicando a isso", diz ele ao Valor.
Pacheco também é autor de livros e artigos e idealizador
do projeto Âncora, entidade com ares de Escola da Ponte, em Cotia (SP).
Valor: Que resultado o senhor
espera do trabalho que faz para o MEC?
José Pacheco: A "chamada
pública" que o MEC lançou é uma oportunidade de mostrar que o Brasil tem
tudo aquilo de que precisa para sair da dramática situação em que a educação se
encontra. Conheço centenas de projetos extraordinários e que estão
completamente no anonimato. O objetivo é dar visibilidade a essas iniciativas,
mostrar a vitalidade, o potencial da escola brasileira, que muitos ignoraram.
Valor: Que conselhos o senhor
oferece aos professores e diretores?
Pacheco: Proponho que as suas
práticas sejam coerentes com o projeto escrito. Que não enveredem por falsas "alternativas",
que não adotem modas pedagógicas, que se emancipem do ensino de faz de conta.
Que concebam e desenvolvam novas construções sociais de aprendizagem, para
substituição do modelo epistemológico do século XIX, ainda predominante nas
escolas do século XXI.
Valor: Que modelo é esse tão
resistente ao tempo e que o senhor combate?
Pacheco: É um modelo que nasce
na Prússia militar: aula, turma e série é da Prússia militar. Os sinais sonoros
de entrada e saída são desse período. Eram os toques de clarim, hoje são as
sirenes, as sinetas. Na França, nos conventos, a sala de aula com a monja
sozinha, que é a professora. Na Inglaterra da Revolução Industrial, a produção
em série, dizendo que há "peças" que não aprendem, "peças"
defeituosas. Tudo isso tem origem histórica e social. No Brasil, depois de
acabarem com os jesuítas, houve um período de terra de ninguém e quando surge a
Primeira República Benjamin Constant, militar cartesiano, positivista, segue
modelo adotado no século XIX. Esse modelo ficou até hoje. Se fazia sentido no
século XIX, hoje não faz. Estamos há 150 anos com esse modelo e o que ele
produz é ignorância e infelicidade.
Valor: Por que esse modelo
perdura?
Pacheco: A quem convém isso?
Convém a políticos corruptos, ao voto de cabresto. Convém a todas as máfias que
temos no Brasil. Convém porque vai mantendo o povo na ignorância. A educação é
um ato político. É um ato de amor e um ato político.
Valor: Há espaço dentro do
que está estabelecido pela legislação, pelo MEC, para que escolas públicas
adotem modelos diferentes do modelo tradicional?
Pacheco: As centenas de
escolas às quais me referi baseiam-se na lei, sobretudo no artigo 23 da Lei de
Diretrizes e Bases, e organizam-se de outra maneira. Série e turma não fazem
sentido nem têm fundamento científico nem legal. Se considerarmos que essas
escolas sejam protótipos, elas são prova de que é possível no Brasil fazer essa
mudança.
Valor: Falta dinheiro para
que a educação seja melhor no Brasil?
Pacheco: Seria possível pagar
excelentes salários a professores. A questão é que o desperdício é grande, a corrupção
é grande no sistema educativo, isso significa que há secretários de Educação
corruptos, diretores corruptos. Há despesas que não fazem sentido: uniforme,
carteiras e classes de apoio, que não seriam necessárias se a educação fosse
boa.
Valor: Dar aos alunos
tablets, laptops como ferramentas para pesquisa e de atividades escolares é o
futuro?
Pacheco: Colocar um laptop na
mão de cada criança não significa que ela vai aprender ao ter contato com a informação.
Para haver conhecimento, tem que haver transformação da informação em
conhecimento. E isso acontece com a mediação de um educador. As pessoas têm de
desenvolver currículo subjetivo, além do currículo formal. Um currículo que
elas realizem suas vocações, que elas vão construindo seus projetos com o apoio
das novas tecnologias e sendo avaliadas.
Valor: Países do norte da
Europa e a Coreia do Sul são bem sucedidos em exames internacionais de desempenho
dos alunos. O Brasil tem de se mirar neles?
Pacheco: Conheço esses países,
conheço a educação que se faz nesses países. Ela já difere do modelo
tradicional, mas apenas um pouco. Finlândia, Coreia do Sul e Japão aparecem nos
primeiros lugares no Pisa e também estão entre os primeiros nos índices de
suicídio juvenil. Há infelicidade grande, o que indica que muitas pessoas não têm
projetos de vida, não aprendem a ser.
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