sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"

"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"

Por Marcos de Moura e Souza

Por 31 anos, José Pacheco esteve à frente da Escola da Ponte, centro educacional público da cidade do Porto, em Portugal, e ganhou admiradores e críticos dentro e fora de seu país. Sob sua direção, a instituição aboliu traços da escola tradicional: turmas definidas, séries, provas e aulas com um professor falando e escrevendo no quadronegro.

A Ponte virou referência e antítese do padrão escolar que Pacheco condena como sendo peça de museu do século XIX, mas que resiste no século XXI em muitos países.

Desde 2007, Pacheco mora no Brasil tem uma casa em Vargem Grande Paulista (SP) e trabalha em um projeto para o Ministério da Educação (MEC) com um grupo de educadores brasileiros para identificar iniciativas educacionais inovadoras pelo país. Aos 64 anos, dedica-se também a rodar o Brasil visitando escolas (a maioria delas públicas), centros de pesquisas e universidades para propor ideias a professores e diretores e estimular mudanças.

"Vou aonde me chamarem, aonde considere que possa ajudar a melhorar a qualidade da educação. Em vez de estar parado, como aposentado, vou me dedicando a isso", diz ele ao Valor.
Pacheco também é autor de livros e artigos e idealizador do projeto Âncora, entidade com ares de Escola da Ponte, em Cotia (SP).

Valor: Que resultado o senhor espera do trabalho que faz para o MEC?
José Pacheco: A "chamada pública" que o MEC lançou é uma oportunidade de mostrar que o Brasil tem tudo aquilo de que precisa para sair da dramática situação em que a educação se encontra. Conheço centenas de projetos extraordinários e que estão completamente no anonimato. O objetivo é dar visibilidade a essas iniciativas, mostrar a vitalidade, o potencial da escola brasileira, que muitos ignoraram.

Valor: Que conselhos o senhor oferece aos professores e diretores?
Pacheco: Proponho que as suas práticas sejam coerentes com o projeto escrito. Que não enveredem por falsas "alternativas", que não adotem modas pedagógicas, que se emancipem do ensino de faz de conta. Que concebam e desenvolvam novas construções sociais de aprendizagem, para substituição do modelo epistemológico do século XIX, ainda predominante nas escolas do século XXI.

Valor: Que modelo é esse tão resistente ao tempo e que o senhor combate?
Pacheco: É um modelo que nasce na Prússia militar: aula, turma e série é da Prússia militar. Os sinais sonoros de entrada e saída são desse período. Eram os toques de clarim, hoje são as sirenes, as sinetas. Na França, nos conventos, a sala de aula com a monja sozinha, que é a professora. Na Inglaterra da Revolução Industrial, a produção em série, dizendo que há "peças" que não aprendem, "peças" defeituosas. Tudo isso tem origem histórica e social. No Brasil, depois de acabarem com os jesuítas, houve um período de terra de ninguém e quando surge a Primeira República Benjamin Constant, militar cartesiano, positivista, segue modelo adotado no século XIX. Esse modelo ficou até hoje. Se fazia sentido no século XIX, hoje não faz. Estamos há 150 anos com esse modelo e o que ele produz é ignorância e infelicidade.

Valor: Por que esse modelo perdura?
Pacheco: A quem convém isso? Convém a políticos corruptos, ao voto de cabresto. Convém a todas as máfias que temos no Brasil. Convém porque vai mantendo o povo na ignorância. A educação é um ato político. É um ato de amor e um ato político.

Valor: Há espaço dentro do que está estabelecido pela legislação, pelo MEC, para que escolas públicas adotem modelos diferentes do modelo tradicional?
Pacheco: As centenas de escolas às quais me referi baseiam-se na lei, sobretudo no artigo 23 da Lei de Diretrizes e Bases, e organizam-se de outra maneira. Série e turma não fazem sentido nem têm fundamento científico nem legal. Se considerarmos que essas escolas sejam protótipos, elas são prova de que é possível no Brasil fazer essa mudança.

Valor: Falta dinheiro para que a educação seja melhor no Brasil?
Pacheco: Seria possível pagar excelentes salários a professores. A questão é que o desperdício é grande, a corrupção é grande no sistema educativo, isso significa que há secretários de Educação corruptos, diretores corruptos. Há despesas que não fazem sentido: uniforme, carteiras e classes de apoio, que não seriam necessárias se a educação fosse boa.

Valor: Dar aos alunos tablets, laptops como ferramentas para pesquisa e de atividades escolares é o futuro?
Pacheco: Colocar um laptop na mão de cada criança não significa que ela vai aprender ao ter contato com a informação. Para haver conhecimento, tem que haver transformação da informação em conhecimento. E isso acontece com a mediação de um educador. As pessoas têm de desenvolver currículo subjetivo, além do currículo formal. Um currículo que elas realizem suas vocações, que elas vão construindo seus projetos com o apoio das novas tecnologias e sendo avaliadas.

Valor: Países do norte da Europa e a Coreia do Sul são bem sucedidos em exames internacionais de desempenho dos alunos. O Brasil tem de se mirar neles?
Pacheco: Conheço esses países, conheço a educação que se faz nesses países. Ela já difere do modelo tradicional, mas apenas um pouco. Finlândia, Coreia do Sul e Japão aparecem nos primeiros lugares no Pisa e também estão entre os primeiros nos índices de suicídio juvenil. Há infelicidade grande, o que indica que muitas pessoas não têm projetos de vida, não aprendem a ser.


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