Compartilhamento de idéias a respeito do nosso curso de filosofia junto ao professor Nasser.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
domingo, 13 de dezembro de 2015
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
terça-feira, 24 de novembro de 2015
O Princípio da Responsabilidade, de Hans Jonas (resenha) - Blog do Felipe Pimenta
http://felipepimenta.com/2015/11/23/resenha-o-principio-responsabilidade-de-hans-jonas/
O Princípio da Responsabilidade, de Hans Jonas (resenha)
Desde o século XIX, século do
otimismo e da técnica, e tendo seu auge no século XX, o avanço da civilização
Ocidental produziu uma enorme “fé” secularizada nos poderes do homem e um
progressismo bastante doentio. O livro do filósofo alemão Hans Jonas O Princípio
Responsabilidade, escrito em 1979, no fundo é uma grande denúncia contra
qualquer utopia progressista, seja capitalista ou comunista.
Não há dúvidas de que para que
haja qualquer ideia de progresso existe a necessidade de que o Ser exista, pois
Jonas não cansa de afirmar que a vida é “um não enfático ao não-ser”. Sem
qualquer otimismo raso e mesmo reconhecendo que doutrinas filosóficas
pessimistas são realmente difíceis de refutar, Jonas afirma que a pergunta
radical e de origem teológica feita por Leibniz “Por que existe alguma coisa ao
invés do nada?” já garante, na mesma medida que o Gênesis e o Timeu de Platão,
que o mundo seja bom, pois o existir é preferível ao não-existir. Muito
provavelmente sem essa visão religiosa platônico-mosaica, que Jonas não esconde
que prefere, a ética da responsabilidade já estaria comprometida seriamente.
O próprio sentido do princípio
responsabilidade é uma alteração do imperativo categórico kantiano, isso porque
Jonas ensina que Kant, e outras teorias éticas desde a Antiguidade, estavam
basicamente preocupadas com o indivíduo somente, já o seu novo princípio
estende-se a toda humanidade, e esse imperativo passa a ser: “age de maneira
que tuas ações não comprometam a existência de uma autêntica vida humana sobre
a Terra”. Isso é necessário porque uma nova civilização tecnológica implica que
certas ações humanas possam comprometer o futuro da humanidade e dos seres que
ainda estão por vir. Hans Jonas é enfático ao afirmar que o indivíduo isolado
pode até negar-se a trazer filhos ao mundo, mas a humanidade como um todo não
tem o direito a um suicídio coletivo.
Todo o texto do livro de Jonas
aborda de uma maneira um tanto breve e superficial a questão do otimismo versus
o pessimismo, pois isso vai além de uma doutrina como o marxismo. Digo isso
porque Jonas acerta ao afirmar que o marxismo é filho direto- e o mais radical-
do ideal de Francis Bacon de uma luta eterna do homem contra a natureza para
extrair dela seus segredos. No fundo a liberdade marxista é destrutiva não somente
contra a natureza, pela qual Marx e seus seguidores não demonstram qualquer
compreensão, mas também contra os valores Ocidentais, de cujos valores os
marxistas desconfiam profundamente. E mais: Jonas também denuncia que o
comunismo marxista e todo progressismo esconde seu pessimismo sob o véu de um
“otimismo” contraditório, pois quem quer melhorar o mundo a qualquer preço é
porque está pessimista ao extremo em relação à humanidade atual.
É muito interessante a crítica
que Jonas faz ao capitalismo e comunismo contemporâneos como a toda civilização
tecnológica atual. Todos os avanços na criação de máquinas e aparelhos que
possibilitaram uma expansão notável da produção, e que foram endeusadas por
todos, mas especialmente os marxistas, terminaram por reduzir a carência
histórica da humanidade por bens de consumo e alimentos, porém geraram
ironicamente uma notável necessidade de trabalho. Tudo ficou mais acessível,
mas as atividades que existiam anteriormente foram extintas, lançando milhões
ao desemprego, de maneira que tanto as sociedade capitalistas como comunistas
tiveram que inventar “empregos”, em sua maioria sem sentido e entediantes, para
preencherem a existência vazia da massa de desempregados.
Acredito que Jonas é muito
feliz em mostrar as mazelas que a tecnologia atual trouxe ao Homem, mas ele não
aborda é que os problemas atuais vão muito além da questão das máquinas ou do
uso errado da ciência. O problema está também na perda do sentido de
Transcendência que o Ocidente há 200 anos perdeu quase que completamente. Tudo
isso está refletido em termos sociais, pois é certo que o progresso científico
está nos matando, vide o controle de natalidade proporcionado pela pílula,
sendo que os locais menos “científicos” do planeta, como certas partes do Oriente
e da África são os que possuem maior expansão demográfica. O Ocidente
definitivamente não possui a melhor resposta em termos do funcionamento da
sociedade para garantir sua sobrevivência em longo prazo. Não há mais dinamismo
ou esperança, o que é a negação da existência do Ser, preferível ao não-Ser, e
de que o mundo tem um propósito e uma finalidade. Hans Jonas afirma de certa
maneira que o Ocidente destrói a si mesmo quando tenta anular qualquer
necessidade de sua população de trabalhar de maneira criativa por sua
sobrevivência. A liberdade precisa da necessidade, não cansa escrever Jonas
durante o livro. Uma população com excesso de benefícios e um longo tempo livre
tem um potencial destrutivo ainda não testado em toda sua extensão até o tempo
de Jonas, mas que hoje nós percebemos de maneira mais clara.
Agora, no fim dessa resenha,
posso comparar duas tendências que são abordadas de maneira superficial no
livro, mas que são importantíssimas para uma melhor compreensão do que está por
vir: a entropia e a sintropia. A entropia acredita que o Universo está desde
sempre em decadência e que tudo tende para o caos ao longo do tempo. O Universo
está perdendo força. A Sintropia, ao contrário, afirma que o Universo caminha
para uma ordem cada vez maior, e na concepção platônica isso significa que o
homem, como imago Dei, é um auxiliar no estabelecimento dessa ordenação do
Universo. Jonas até cita o platônico Whitehead, que afirmava “que o universo
era um avanço para uma novidade sempre criativa”. Muito antes dele, Nicolau de
Cusa, também um filósofo platônico, reagia contra o princípio de entropia de
Aristóteles. Cusa, em seu livro De Concordantia Catholica, afirmava: “A
entropia existe da mesma maneira que o Mal existe. Não possui um Ser positivo,
e portanto existe apenas na mesma extensão que o homem, através do mau uso do
seu livre-arbítrio, afasta-se do bem. Ao invés de ser uma lei do Universo, a
entropia é uma consequência maligna da decisão do homem de decrescer sua
capacidade de receber o Bem e a Graça de Deus.” Sem essa fé no futuro que o
Ocidente e o próprio Brasil exibem, não existe maneira do princípio
responsabilidade de Hans Jonas existir, como também a própria existência do
homem sobre a Terra.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"
"Modelo [educacional] produz ignorância e infelicidade"
Por Marcos de Moura e Souza
Por 31 anos, José Pacheco esteve à frente da Escola da
Ponte, centro educacional público da cidade do Porto, em Portugal, e ganhou
admiradores e críticos dentro e fora de seu país. Sob sua direção, a
instituição aboliu traços da escola tradicional: turmas definidas, séries,
provas e aulas com um professor falando e escrevendo no quadronegro.
A Ponte virou referência e antítese do padrão escolar que
Pacheco condena como sendo peça de museu do século XIX, mas que resiste no
século XXI em muitos países.
Desde 2007, Pacheco mora no Brasil tem uma casa em Vargem
Grande Paulista (SP) e trabalha em um projeto para o Ministério da Educação
(MEC) com um grupo de educadores brasileiros para identificar iniciativas educacionais
inovadoras pelo país. Aos 64 anos, dedica-se também a rodar o Brasil visitando
escolas (a maioria delas públicas), centros de pesquisas e universidades para
propor ideias a professores e diretores e estimular mudanças.
"Vou aonde me chamarem, aonde considere que possa
ajudar a melhorar a qualidade da educação. Em vez de estar parado, como
aposentado, vou me dedicando a isso", diz ele ao Valor.
Pacheco também é autor de livros e artigos e idealizador
do projeto Âncora, entidade com ares de Escola da Ponte, em Cotia (SP).
Valor: Que resultado o senhor
espera do trabalho que faz para o MEC?
José Pacheco: A "chamada
pública" que o MEC lançou é uma oportunidade de mostrar que o Brasil tem
tudo aquilo de que precisa para sair da dramática situação em que a educação se
encontra. Conheço centenas de projetos extraordinários e que estão
completamente no anonimato. O objetivo é dar visibilidade a essas iniciativas,
mostrar a vitalidade, o potencial da escola brasileira, que muitos ignoraram.
Valor: Que conselhos o senhor
oferece aos professores e diretores?
Pacheco: Proponho que as suas
práticas sejam coerentes com o projeto escrito. Que não enveredem por falsas "alternativas",
que não adotem modas pedagógicas, que se emancipem do ensino de faz de conta.
Que concebam e desenvolvam novas construções sociais de aprendizagem, para
substituição do modelo epistemológico do século XIX, ainda predominante nas
escolas do século XXI.
Valor: Que modelo é esse tão
resistente ao tempo e que o senhor combate?
Pacheco: É um modelo que nasce
na Prússia militar: aula, turma e série é da Prússia militar. Os sinais sonoros
de entrada e saída são desse período. Eram os toques de clarim, hoje são as
sirenes, as sinetas. Na França, nos conventos, a sala de aula com a monja
sozinha, que é a professora. Na Inglaterra da Revolução Industrial, a produção
em série, dizendo que há "peças" que não aprendem, "peças"
defeituosas. Tudo isso tem origem histórica e social. No Brasil, depois de
acabarem com os jesuítas, houve um período de terra de ninguém e quando surge a
Primeira República Benjamin Constant, militar cartesiano, positivista, segue
modelo adotado no século XIX. Esse modelo ficou até hoje. Se fazia sentido no
século XIX, hoje não faz. Estamos há 150 anos com esse modelo e o que ele
produz é ignorância e infelicidade.
Valor: Por que esse modelo
perdura?
Pacheco: A quem convém isso?
Convém a políticos corruptos, ao voto de cabresto. Convém a todas as máfias que
temos no Brasil. Convém porque vai mantendo o povo na ignorância. A educação é
um ato político. É um ato de amor e um ato político.
Valor: Há espaço dentro do
que está estabelecido pela legislação, pelo MEC, para que escolas públicas
adotem modelos diferentes do modelo tradicional?
Pacheco: As centenas de
escolas às quais me referi baseiam-se na lei, sobretudo no artigo 23 da Lei de
Diretrizes e Bases, e organizam-se de outra maneira. Série e turma não fazem
sentido nem têm fundamento científico nem legal. Se considerarmos que essas
escolas sejam protótipos, elas são prova de que é possível no Brasil fazer essa
mudança.
Valor: Falta dinheiro para
que a educação seja melhor no Brasil?
Pacheco: Seria possível pagar
excelentes salários a professores. A questão é que o desperdício é grande, a corrupção
é grande no sistema educativo, isso significa que há secretários de Educação
corruptos, diretores corruptos. Há despesas que não fazem sentido: uniforme,
carteiras e classes de apoio, que não seriam necessárias se a educação fosse
boa.
Valor: Dar aos alunos
tablets, laptops como ferramentas para pesquisa e de atividades escolares é o
futuro?
Pacheco: Colocar um laptop na
mão de cada criança não significa que ela vai aprender ao ter contato com a informação.
Para haver conhecimento, tem que haver transformação da informação em
conhecimento. E isso acontece com a mediação de um educador. As pessoas têm de
desenvolver currículo subjetivo, além do currículo formal. Um currículo que
elas realizem suas vocações, que elas vão construindo seus projetos com o apoio
das novas tecnologias e sendo avaliadas.
Valor: Países do norte da
Europa e a Coreia do Sul são bem sucedidos em exames internacionais de desempenho
dos alunos. O Brasil tem de se mirar neles?
Pacheco: Conheço esses países,
conheço a educação que se faz nesses países. Ela já difere do modelo
tradicional, mas apenas um pouco. Finlândia, Coreia do Sul e Japão aparecem nos
primeiros lugares no Pisa e também estão entre os primeiros nos índices de
suicídio juvenil. Há infelicidade grande, o que indica que muitas pessoas não têm
projetos de vida, não aprendem a ser.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Leonardo Boff - Ecologia hoje: uma aposta pela vida (livro de Enrique Leff)
Ecologia hoje: uma aposta pela vida
28/09/2015
Há poucos pensadores no campo da ecologia que tentam ir às raízes da atual crise ecológica global. Um dos mais renomados é seguramente o mexicano Enrique Leff com seu mais recente livro: A aposta pela vida: imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do Sul “(a sair pela Vozes). Além de professor e pesquisador, foi por vários anos o Coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e o Caribe no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Acumulou muitas experiências que serviram e servem de base para a sua produção intelectual.
Dá ênfase à preocupação
filosófico-social, pois seu interesse é decifrar os mecanismos que nos levaram
à atual crise e como poderemos sair bem dela. Portanto, estuda as causas
metafísicas (a concepção do ser e da realidade) e epistemológicas (os modos de
conhecimento) em suas diversas ontologias (determinações sociais, políticas,
culturais e do mundo da vida, entre outras).
Procede a um detalhado trabalho
de reconstrução da ecologia social e da ecologia política: como surgiram e
evoluiram face à crescente crise ecológica, especialmente ao aquecimento
global. Essa parte é relevante para quem quiser conhecer os meandros dos
discurso ecológico em suas diferentes tendências.
A pergunta que atravessa todo
seu texto, denso, rico em referências bibliográficas de várias ciências e
tendências, se concentra nesta questão: como estabelecer as condições adequadas
à vida num mundo feito insustentável?
A resposta demanda duas tarefas:
A primeira é a demolição dos
pressupostos equivocados da modernidade com sua racionalidade
tecnico-científica-utilitarista e vontade de dominação de tudo: de territórios,
de povos, da natureza e dos processos da vida; realiza esta diligência com uma
argumentação cerrada, citando as autoridades filosóficas e científicas mais
sérias, sempre salvaguardando o que é irrenunciável mas denunciando como esse
tipo exacerbado de racionalidade levou a uma crise civilizatória global com
processos insustentáveis e hostis à vida, podendo levar, em seu termo final, a
um colapso de nossa civilização.
A segunda consiste na criação de
uma nova consciência e o sentido de um destino comum Terra-Natureza-Humanidade.
É a parte mais criativa. Auxilia-o a teoria da complexidade e do caos; discute
o sentido da sustentabilidade como princípio de vida e de imperativo da
sobrevivência.
Interroga as várias teorias do surgimento da vida e sustenta a
tese de F. Capra segundo o qual a vida se originaria do metabolismo entre
matéria e energia, gerando redes autogenerativas que liberam os fluxos da vida.
Detalha os diferentes modos de
se reconstruir e de se apropriar da natureza, respeitando seus ritmos e ciclos.
Contrariando o paradigma vigente
de apropriação privada da natureza e dos fluxos vitais em função do
enriquecimento, sabendo apenas modernizar sem ecologizar os saberes, postula
vários imaginários alternativos de organizar a Casa Comum, consoante as
diferentes culturas nas quas a identidade e a diferença são trabalhdas de forma
integradora. Valoriza especialmente a contribuição andina do “bien vivir”. Mais
que uma filosofia de vida é uma metáfora de um mundo em harmonia com o Todo. O
sumak kawsai (bien vivir) engloba práticas sociais nas quais se expressam as
relações dos povos com o cosmos, com seu território, seus ecossitemas, suas
culturas e suas relações sociais.
A parte final nos comunica
grande esperança: o crescimento a nivel mundial através de incontáveis
movimentos e experiências locais que revelam a capacidade das populações de
resistir à razão econômica, instrumental e utilitarista vigente. Os países
centrais que já exploraram praticamente quase todos os seus serviços e bens
naturais tentam recolonizar especialmente a América Latina para que seja uma
reserva destes bens para eles. Na nossa visão latino-americana, tais “bondades
da natureza” como dizem os povos originários, constituem a base para os
direitos da natureza e da Terra tida como a Pachamama, para os direitos
culturais e ambientais que concretizam outras formas de habitar a Casa Comum e
de se beneficiar de tudo o que ela nos oferece para viver em harmonia.
Aqui se revela uma nova aposta
pela vida, que não a ameaça, mas dela cuida, cria-lhe as condições de sua
permanência sobre a face da Terra e lhe garante as condições de co-evoluir e
constituir-se num bem a ser herdado pelas gerações que virão depois de nós.
Este livro de Leff é um alento
para aqueles que uma vez despertaram para a crise ecológica, não se resignam
diante das estratéigas de dominação dos poderosos, mas resitem e ensaiam novas
formas de convivência, de produção, de consumo e de cuidado e respeito para com
todos os seres especialmente pela grande e generosa Mãe Terra.
É um livro necessário que vai na
linha exposta com grande força pelo Papa Francisco em sua encíclica sobre “o
cuidado da Casa Comum.
Leonardo Boff é colunista do
JB on line e escreveu: Ecologia:grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 2002.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
terça-feira, 25 de agosto de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
segunda-feira, 13 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Papa pede mudança na estrutura mundial - 10/07/2015 - Mundo - Folha de S.Paulo
Papa pede mudança na estrutura mundial - 10/07/2015 - Mundo - Folha de S.Paulo
FABIANO MAISONNAVEENVIADO ESPECIAL A SANTA CRUZ DE LA SIERRA (BOLÍVIA)
Papa pede mudança na estrutura mundial
Em discurso de forte tom político na Bolívia, Francisco exorta o povo a promover transformações e critica sistema
Pontífice pede perdão pelos crimes cometidos pela Igreja Católica contra os indígenas na colonização da América
No discurso mais político de seus mais de dois anos de pontificado, o papa Francisco defendeu nesta quinta (9), durante visita à Bolívia, uma "mudança de estruturas" mundial e chamou o capitalismo de "ditadura sutil".
Falando em encontro com movimentos sociais em Santa Cruz de la Sierra após o presidente Evo Morales, o papa os chamou a realizar "três grandes tarefas" na economia, na união entre os povos e na preservação ambiental.
"Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?", perguntou o papa a centenas de ativistas, entre os quais o MST, sem-teto, indígenas e quilombolas brasileiros.
"Digamos sem medo: queremos uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. Tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco", completou.
Para o papa, a "globalização da esperança" nasce e cresce entre os pobres, mas até a elite quer mudanças: "Dentro dessa minoria cada vez menor que acredita que se beneficia deste sistema reinam a insatisfação e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza."
Em outra crítica à "ditadura sutil" do capitalismo, disse que "atrás de tanta dor, morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia (330-379) chamava 'o esterco do Diabo' [dinheiro]".
TAREFAS
O líder católico atacou também "a concentração monopólica dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural". Para ele, trata-se de "colonialismo ideológico".
Apesar da análise dura, Francisco advertiu contra o excesso de pessimismo e exortou os movimentos sociais a protagonizarem mudanças: "O futuro da humanidade está em suas mãos."
Em seguida, o papa propôs três tarefas aos movimentos.
A primeira é "pôr a economia a serviço dos povos" para assegurar os "três Ts: trabalho, teto e terra". "A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a administração correta da casa comum", disse.
"A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano é dever moral. Para os cristãos, um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres o que lhes pertence."
Para a segunda tarefa, "unir nossos povos no caminho da paz e da justiça", ele defendeu o conceito de "pátria grande" usado por movimentos de esquerda para pregar a união latino-americana.
Francisco afirmou que problemas como a violência não podem ser resolvidos sem cooperação. Mas advertiu: "Colocar a periferia em função do centro lhe nega o direito ao desenvolvimento integral. Isso é iniquidade e gera tal violência que não haverá recursos capazes de deter."
Por último, pediu a preservação da "Mãe Terra", ecoando sua encíclica mais recente: "Não se pode permitir que certos interesses --globais, mas não universais--submetam Estados e organismos internacionais e continuem destruindo a criação".
DESCULPAS
Visitando um país de maioria indígena, o papa pediu desculpas pelo ação da Igreja Católica na colonização.
"Foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus", disse, sob intensos aplausos. "Quero ser muito claro, como foi são João Paulo 2°: peço humildemente perdão."
Ao final, conclamou todos a não deixarem "nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania". "Sigam a sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra."
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Laudato Si’: interpretações e chaves de leitura | Revista IHU Online #468
Laudato Si’: interpretações e chaves de leitura | Revista IHU Online #468
Laudato Si’: interpretações e chaves de leitura
Na manhã de 18 de junho, foi publicada a Carta Encíclica do Papa Francisco Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum”. O título, Laudato Si’, é tomado do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis.
Por: João Vitor Santos e Ricardo Machado
O texto é apresentado em 192 páginas, agrupados em 246 parágrafos, que funcionam como uma espécie de versículos, cujos conceitos são melhor elucidados pelas 172 notas de rodapé que compõem o documento apostólico, oferecendo uma chave de leitura mais ampla. Inspirada pela metodologia da Teologia da Libertação, a Encíclica divide-se em seis capítulos, divididos em Ver – Capítulo 1; Julgar – Capítulos 2, 3 e 4; e Agir – Capítulos 5 e 6.
A questão de fundo da Encíclica versa em torno do conceito de ecologia integral, que relaciona as ações do ser humano como um todo. No conceito agir “ecologicamente” não se trata somente de proteger animais e plantas, mas, sim, ter uma postura misericordiosa diante do próximo. O que se apresenta, portanto, é uma preocupação integral com o outro, no sentido mais amplo do termo. A abordagem de Laudato Si’ coloca em causa a perspectiva antropocêntrica, reposicionando o debate sobre o planeta Terra, compreendo-o como “a casa de todos, um bem comum”.
A íntegra da encíclica está disponível em português no sítio do Vaticano (disponível no link http://bit.ly/1Lhax37). Desde o dia do anúncio do documento apostólico, o sítio do IHU vem publicando uma série de análises e interpretações. Diante desta conjuntura, a IHU On-Line apresenta um guia de leitura para auxiliar na compreensão da Encíclica e ampliar a reflexão e o debate em torno do tema.
Nas Notícias do Dia do sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, há um amplo texto que oferece suporte para uma primeira leitura da Encíclica, ajudando a compreender o seu desenrolar na totalidade e a identificar as linhas principais.
A entrevista especial com Leonardo Boff discute o documento apostólico, sublinhando o conceito de ecologia integral. “A ecologia integral é o ponto central da construção teórica e prática da Laudato Si’. Receio que ela não seja entendida pela grande maioria, colonizada mentalmente apenas pelo discurso antropocêntrico de ambientalismo", afirma o teólogo e escritor.
Edgar Morin, em entrevista publicada nas Notícias do Dia, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, afirma que “O verdadeiro humanismo é aquele que vai dizer que eu reconheço em todo ser vivo ao mesmo tempo um ser semelhante e diferente de mim”.
"Além de quebrar a tradição ao citar textos de conferências nacionais, o Papa Francisco lança mão de uma gama de pensadores católicos. Ele cita oito vezes Romano Guardini, sacerdote e teólogo influente (1885-1968)", escreve Kevin Ahern, eticista teológico e professor assistente de Estudos Religiosos na Manhattan College, em artigo publicado pelo sítio America, e reproduzido nas Notícias do Dia do IHU.
Ambientalistas encaram a encíclica Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum, apresentada quinta, 18, pelo papa Francisco, como um “presente” que deve alavancar ainda mais as discussões de todo o mundo sobre a urgência da preservação da natureza. A 298ª encíclica da História da Igreja Católica é a primeira que traz a questão ambiental em seu cerne.
"O Papa proporcionou o primeiro grande ensino papal sobre o planejamento urbano, observando, por exemplo, a necessidade de se cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de ‘estar em casa’ dentro da cidade que nos envolve e une", escreve David Cloutier, professor de teologia moral e Ensino Social da Igreja na Mount St. Mary’s University (MD), em artigo publicado nas Notícias do Dia do IHU.
É mais fácil que um papa e a Igreja aceitem o progressismo social do que a mudança das relações entre os humanos. Ele pode aceitar, na misericórdia, os homossexuais, mas não a comunidade LGBT. Pode falar do valor das mulheres, criticar a violência contra elas, mas não reconhecer a sua autodeterminação.
“A mudança indicada é a mudança de um antropocentrismo explorador para um biocentrismo participativo. Esta mudança requer algo além do ambientalismo, que permanece sendo antropocêntrico enquanto tenta limitar os efeitos deletérios da presença humana no meio ambiente”, escreve Dave Pruett, ex-pesquisador da NASA, professor emérito de Matemática da James Madison University, Virgínia (EUA), publicado nas Notícias do Dia do IHU.
Marcelo Sánchez Sorondo, em entrevista publicada nas Notícias do Dia do IHU, defende que “A nova encíclica é um verdadeiro desafio para os poderosos do mundo. Nós, naturalmente, sabemos que o petróleo é uma fonte fundamental para as multinacionais. Mas confiamos que o pensamento do pontífice pode incidir sobre as pessoas”.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas Ban Ki-moon saudou o lançamento da encíclica do Papa Francisco, documento onde o líder da Igreja Católica fala das mudanças climáticas como um dos principais desafios que a humanidade enfrenta e convida a todos para um “diálogo renovado” sobre como está sendo construído o futuro do nosso planeta.
O secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon estará no Vaticano, no próximo dia 28, para se encontrar com o Papa Francisco. Durante a visita, as conversas dos dois líderes estarão centradas sobre o meio ambiente, ou mais exatamente: os problemas colocados pelas mudanças climáticas e a resposta que a comunidade internacional deve produzir caso deseje conter o fenômeno que está, mais do que nunca, ampliando as crises sociais, as guerras e a imigração.
Em uma perspectiva geral, a Laudato si' tem uma visão ecológica da comunicação, reconhecendo-a inclusive como parte de um âmbito transcendente e não a restringindo meramente a uma prática social ou ao uso de aparatos tecnológicos. A análise é do jornalista Moisés Sbardelotto, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela Unisinos.
"A outra boa notícia veio do Vaticano e eis que mais uma vez o Papa Francisco surpreende e renova o seu empenho em falar sobre problemas contemporâneos. Desta feita em sua primeira encíclica – 'Laudato si’' (Louvado sejas), ele cita o Patriarca Ecumênico Bartolomeu", escreve Reinaldo Canto, jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento, em artigo reproduzido nas Notícias do Dia do IHU.
Uma leitura atenta da última encíclica do Papa Francisco reserva às almas atentas detalhes que reservam algumas surpresas mordazes. O texto do Papa Francisco reserva algumas vultosas surpresas nas citações que introduz: o Pe. Teilhard de Chardin fez uma majestosa entrada, assim como um famoso sábio muçulmano, o sufi Ali Al-Khawwas. Os católicos tradicionalistas “buzinaram”. A reportagem é de Michel Danthe reproduzida nas Notícias do Dia do IHU.
"Afirmação da encíclica sobre a vida como uma teia de existência multidimensional inter-relacionada articula e eleva as diversas cosmologias místicas da sustentabilidade dos indígenas e das comunidades da Ásia, da África e da América Latina rurais", escreve Jojo M. Fung, membro da região que compreende a Companhia de Jesus na Malásia e em Singapura, professor assistente de Teologia Sistemática na Loyola School of Theology nas Filipinas, em artigo reproduzido nas Notícias do Dia do IHU.
"O papa expressa a profunda preocupação com que muitas injustiças econômicas baseadas no mercado, junto da degradação ambiental, têm os seus impactos mais graves recaindo sobre pobres e vulneráveis", comenta Tony Magliano, jornalista, colunista de temas de justiça social e paz, em artigo reproduzido nas Notícias do Dia do IHU.
>> Veja também os Cadernos de Teologia Pública que dialogam com o tema de Encíclica.
- Perdendo e encontrando a criação na tradição cristã. Cadernos Teologia Pública de Elizabeth A. Johnson, 57ª edição;
- O Deus vivo em perspectiva cósmica. Cadernos Teologia Pública de Elizabeth A. Johnson, 51ª edição;
- Eucaristia e Ecologia. Cadernos Teologia Pública de Denis Edwards, 52ª edição;
- Da possibilidade de morte da Terra à afirmação da vida. A teologia ecológica de Jürgen Moltmann. Cadernos Teologia Pública de Sérgio Lopes Gonçalves, 23ª edição;
- Deus e a criação em uma era científica. Cadernos Teologia Pública de William R. Stoeger, 59 edição
Revista IHU Online #468 - A financeirização da vida
Revista IHU Online #468
A financeirização da vida
Os processos de subjetivação e a reconfiguração da relação ‘economia e política’
Uma economia globalizada e financeirizada, que se sobrepõe à política e está descolada de critérios éticos em suas transações. Sob esse pano de fundo, bancos são salvos da falência enquanto as pessoas perdem as casas onde vivem porque não têm condições de continuar honrando seus empréstimos. Nações são varridas por crises econômicas brutais, a democracia é tomada como refém das oscilações do mercado e o endividamento como status de inclusão social via consumo são as notas de um réquiem endereçado à política.
A financeirização da vida e os processos de subjetivação que são requeridos e a consequente reconfiguração da relação entre a economia e a política, são o tema da edição desta semana da revista IHU On-Line. Pesquisadores de várias áreas do conhecimento refletem sobre este fenômeno da vida contemporânea.
Contribuem para o debate Yann Moulier Boutang, Maurizio Lazzarato, Massimo Amato, Stefano Zamagni, Giuseppe Cocco,Rodrigo Karmy, Sandro Luiz Bazzanella, Adriano Correiae Albert Ogien.
sábado, 27 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de junho de 2015
sexta-feira, 5 de junho de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
quarta-feira, 27 de maio de 2015
segunda-feira, 25 de maio de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
segunda-feira, 18 de maio de 2015
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quinta-feira, 23 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
terça-feira, 21 de abril de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
terça-feira, 7 de abril de 2015
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial
Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial
Matéria do site da Unisinos, com um bom resumo da sua obra, e das críticas a ela.
Matéria do site da Unisinos, com um bom resumo da sua obra, e das críticas a ela.
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Thomas
Piketty, a nova estrela da economia mundial
Elogiado pelos prêmios Nobel de Economia, Paul
Krugman e Joseph Stiglitz, ressaltado pelo influente editor do jornal Financial
Times, Martin Wolf, e analisado em profundidade pelo semanário The Economist.
“Capital in the 21st Century” [O capital no século XXI], do economista francês
Thomas Piketty (foto), contém um duro ataque ao capitalismo e um traço que
considera inerente ao seu funcionamento: uma crescente desigualdade que, cedo
ou tarde, será “intolerável”.
A reportagem é
de Marcelo Justo, publicada por BBC Mundo, 07-05-2014. A tradução é do Cepat.
A mensagem recorda (assim como o
título da obra) as predições de Karl Marx sobre o inevitável antagonismo entre
uma minoria cada vez mais rica e uma maioria cada vez mais relegada.
Não em vão, The Economist chamou
Piketty como “o moderno Marx”, mas entre as surpresas deste suposto herdeiro do
autor de “O Capital” e do “Manifesto Comunista” está o fato de que foi
recebido, simultaneamente, pela Casa Branca e o Fundo Monetário Internacional
para que explicasse as suas teses.
Em sua resenha para The New York
Review, Paul Krugman procurou sintetizar o interesse que o livro desperta.
“Apresenta um novo modelo que
integra o conceito de crescimento econômico com o de distribuição de ingressos
salariais e riqueza. Mudará o modo como pensamos sobre a sociedade e a
economia”, escreveu Krugman.
R
contra G
Piketty não é o primeiro a falar
de crescimento da desigualdade. O tema foi tratado por diversos autores, desde
Joseph Stiglitz até o coreano Ha-Joon Chang, e mencionado como um dos grandes
desafios de nossa época por dirigentes políticos mundiais, começando pelo
próprio Barack Obama.
A diferença é que Piketty
revoluciona a análise histórica com uma comparação que abarca desde inícios da
revolução industrial, no século 18, até nossos dias. Segundo Piketty, o
crescimento da desigualdade é inerente ao capitalismo porque a taxa de retorno
ou rendimento do capital (R: rate of capital return) é superior à taxa de
crescimento econômico (G: rate of economic growth), relação resumida na versão
em inglês do livro como “R>G” (R maior que G).
Piketty analisou a evolução de
30 países, durante 300 anos, como explicou ao The New York Times.
“Caso se analise o período de
1700 até 2012, percebe-se que a produção anual cresceu em média 1,6%. Ao
contrário, o rendimento do capital foi de 4 a 5%”, destacou Piketty ao jornal.
A consequência deste processo é
que, a longo prazo, o próprio crescimento econômico se vê afetado. Em outras
palavras, Piketty ataca de frente a ideia de que a distribuição da riqueza
econômica é secundária à criação da mesma.
Os
25 anos dourados
Esta tese bate de frente com a
premissa da economia neoclássica (baseada em Adam Smith e David Ricardo) que
considera que a distribuição da riqueza é um tema secundário do crescimento e
que em “economias maduras” (desenvolvidas) a desigualdade se reduz naturalmente.
Esta tese se baseava na chamada
curva de Kuznets, que postulava que embora as economias fossem muito desiguais
na primeira etapa da industrialização, tornar-se-iam mais igualitárias com o
tempo, em virtude de um processo de amadurecimento intrínseco, resultado do
crescimento.
Kuznets desenvolveu esta
hipótese nos anos 1950 e 1960, no mesmo período em que o capitalismo gozou de
seus “25 anos dourados” (1947-1973), em que o crescimento chegou a 4,5%
anualmente.
Segundo Piketty este período é
uma exceção em razão de fatores históricos aleatórios e institucionais.
“A grande crise de 1914-1945,
com a destruição de capital pela inflação, as duas guerras mundiais e a Grande
Depressão, somado a mudanças institucionais, como a criação do Estado de Bem-Estar,
reverteram um pouco o processo de crescente desigualdade que víamos desde a
revolução industrial”, destacou ao jornal The New York Times.
Em outras palavras, com o
laissez faire a tendência natural é a desigualdade. Por outro lado, a
intervenção da história, que afeta o rendimento do capital e seu investimento
(guerras mundiais), e a do estado (redistribuição) podem alterar esta
tendência.
Em sua “História do século XX”,
o recentemente falecido historiador Eric Hobsbawm apresenta outro ângulo que leva
a mesma conclusão: “Uma das ironias do século XX foi que a Revolução de
Outubro, que tinha como objetivo a eliminação do capitalismo, acabou lhe
salvando ao obrigá-lo a se reformar e planificar sua economia com políticas
redistributivas como o New Deal, escrevia o historiador britânico em princípios
dos anos 1990. Com a queda do Muro de Berlim, o capitalismo voltou a suas
velhas raízes do laissez faire, hoje rebatizadas como neoliberalismo.
Críticas
O livro de Piketty foi criticado
a partir de duas perspectivas.
A direita reconheceu a
“extraordinária magnitude dos dados reunidos e comparados”, mas discordou da
tese principal e da “pobreza” das soluções propostas.
O semanário The Economist
sintetizou em sua última edição as críticas.
“Muitos pensam que Piketty se
equivoca ao acreditar que o futuro será como o passado, o século XXI como o
XVIII e XIX. Outros acrescentam que, na realidade, é cada vez mais difícil
obter uma boa rentabilidade do capital investido. E, além disso, a maioria dos
super-ricos de hoje conseguiu sua riqueza graças ao seu esforço e não por
herança”, destaca o semanário.
A partir de uma perspectiva de
centro-esquerda, Piketty também foi criticado porque sua tese se encontraria
dentro dos limites da economia “neoclássica”.
O autor de “Post Keynesian
Economics: Debt, Distribution and the Macro Economy”, o acadêmico estadunidense
Thomas I. Palley, destaca que esta limitação torna possível “mudar algo para
que não mude nada”, velha técnica do leopardismo.
“Piketty fornece uma explicação
da crescente desigualdade no marco neoclássico e centra o problema na diferença
entre a rentabilidade do capital e o crescimento. Este esquema neoclássico o
faz enfocar o tema tributário como o remédio, sem prestar atenção às estruturas
do poder econômico”, destaca Palley.
Há
alternativas?
Em uma coisa todos concordam: a
desigualdade cresceu nas últimas três décadas.
Segundo The Economist, hoje 1%
da população tem 43% dos ativos do mundo. Os 10% mais ricos detém 83%.
A mensagem de Piketty é que esta
situação irá continuar, a não ser que se adote uma série de medidas
progressistas globais, como um imposto de 80% sobre a riqueza (não apenas sobre
a renda).
Para além da questão se este
remédio faz parte do esquema neoclássico, como critica Palley, dado o poder de
lobby dos grandes capitais e, em muitos casos, sua direta manipulação da coisa
pública (a política econômica de Barack Obama tem estado nas mãos de
ex-banqueiros de Wall Street), é bastante improvável que se possa ir adiante. O
próprio Piketty não é particularmente otimista.
“Hoje, os níveis de desigualdade nos Estados Unidos
são semelhantes aos que existiam na Europa em inícios do século XX. A história
nos ensina que este nível de desigualdade não é positivo para o crescimento
econômico ou a democracia. Os sistemas democráticos não puderam responder de
maneira pacífica e a situação apenas foi solucionada após duas guerras mundiais
e violentos conflitos sociais. Vamos esperar que desta vez seja diferente”,
destaca Piketty.
O Todo é o Meio Ambiente | Corecon PR
O Todo é o Meio Ambiente | Corecon PR
O Todo é o Meio Ambiente
26/02/2015
Marcus Eduardo de Oliveira
Escreve Andrei Cechin, em “A Natureza como Limite da Economia”, que “se a economia capta recursos de qualidade de uma fonte natural e devolve resíduos sem qualidade para a natureza, então não é possível tratar a economia como um ciclo isolado”.
Pelo pressuposto, a economia é apenas uma parte de um todo; o todo é o meio ambiente. Logo, não há como escapar da seguinte ponderação: à medida que acontece o crescimento econômico exponencial se dilapidam as bases da natureza, resultando em sensível diminuição do meio ambiente, agravando substancialmente os fundamentos naturais da vida.
Reforça-se assim a prerrogativa de que mais crescimento significa menos meio ambiente, tendo em vista que a biosfera é finita, não cresce (e jamais irá crescer), além de ser fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) funcionando regiamente sob as leis da termodinâmica.
Sintomaticamente, mais crescimento econômico responde pela exaustão dos recursos naturais e energéticos e pela depredação dos serviços ecossistêmicos.
Assim, é limitada a capacidade de o ecossistema terrestre suportar as pressões advindas do crescimento econômico. Os limites biofísicos constrangem o sistema econômico que, por sua vez, irrompe-se com força destrutiva, expondo o meio ambiente em constante degradação, comprometendo a capacidade de a vida humana prosperar com o equilíbrio desejável.
É necessário, por oportuno, não perder de vista que os recursos naturais são, essencialmente, um conjunto de matéria e energia de qualidade atuando (entrando) no processo econômico.
Na saída desse “cano econômico”, para usar aqui uma expressão do professor Clóvis Cavalcanti, sobra resíduo, poluição, calor e matéria dissipada. Do ponto de vista físico, o processo econômico não cria matéria e energia.
A questão ecológica mais preocupante está justamente no impacto dessa ação (a retirada de recursos naturais e a entrega de resíduos pós-produção) gerada pela atividade econômica.
Esse resíduo gerado deteriora o ambiente de várias maneiras: quimicamente, como no caso do mercúrio ou da chuva ácida; nuclearmente, como o lixo radioativo; ou fisicamente, como a acumulação de CO2 na atmosfera.
Razão pela qual o crescimento econômico – pelas bases da expansão da capacidade produtiva – entendido como condição para satisfazer as necessidades humanas, precisa urgentemente ser repensado, até mesmo porque o crescimento, per si, não atende em linhas gerais aos desejos ilimitados das pessoas.
Seguindo essa linha, o desenvolvimento humano (melhoria da qualidade de vida) dependerá, pois, da retração econômica, e não de seu crescimento. Ademais, qualquer subsistema – como é o caso da economia -, em algum momento necessariamente deve parar de crescer e adaptar-se a uma taxa de equilíbrio natural.
Posto isto, a economia tradicional precisa aceitar um fato inexorável: é impossível um crescimento ilimitado num sistema que depende da existência de recursos naturais finitos. Funda-se nesse argumento um fato imperioso: parar de crescer não significa parar de se desenvolver. É perfeitamente possível prosperar (se desenvolver) sem crescer; é factível, pois, avançar economicamente sem agredir o meio ambiente.
Por sinal, prosperidade econômica, em seu significado mais elementar, deve ser entendida como sinônimo de bem-estar, e não pode haver prosperidade – portanto, melhoria substancial na qualidade de vida das pessoas -, em ambientes constantemente expostos à degradação, reduzidos, por exemplo, à poluição decorrente da expansão produtiva que esgota o patrimônio natural (biomassa da floresta, fertilização do solo, disponibilidade de água, solo arável etc).
Decorre disso a necessidade de se promover a troca da busca incessante do crescimento (expansão quantitativa) pelo desenvolvimento (melhoria qualitativa).
Faz-se necessário, contudo, buscar um “novo modelo econômico” capaz de assegurar a preservação do espaço ecológico que responde pela continuidade da vida humana em bases mais sustentáveis, estando em conformidade com o conjunto teórico que embasa a Ciência Econômica – porém, com uma nova roupagem – voltada às ordens ecológicas, não às mercadológicas.
Para alcançar esse objetivo, é imprescindível condenar a busca pelo crescimento econômico exponencial que “passeia livremente” sobre as ruínas do capital natural (ar, floresta, solo, água) promovendo em seu rastro a mais agressiva destruição dos elementares serviços ecossistêmicos.
Faz-se oportuno ponderar que no linguajar dos economistas ecológicos crescimento econômico vai só até certo “ponto” (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse “ponto” não há melhorias, mas sim perdas significativas (crescimento deseconômico), começando pela qualidade do ar que respiramos e pela completa destruição do espaço natural, afetando substancialmente o que se convenciona entender por qualidade de vida nas cidades, uma vez que os serviços ecossistêmicos são expostos à dilapidação.
Crescimento além dos limites é sinônimo de vida degradada, de ambiente natural destruído. Que fique claro: todo e qualquer crescimento que se expande de forma incontrolável gera consequentemente desequilíbrios ao meio ambiente.
A expansão da atividade econômica, usada como paradigma de ascensão (progresso econômico) no modo de consumir das pessoas, alimentada pela ideologia da propaganda “compre mais”, consubstanciada na obsolescência programada (desgaste dos produtos de forma induzida cujo único objetivo é acelerar o tempo de rotação do capital “forçando” assim novas vendas), tem produzido muito estrago no tocante aos serviços prestados pela natureza, configurando na expressão máxima: mais economia significa menos meio ambiente. Já passou da hora de abandonar esse modelo.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor, com pós-graduação em Política Internacional e mestrado em Integração da América Latina (USP). prof.marcuseduardo@bol.com.br
Os artigos de economistas divulgados pelo CORECON-PR são da inteira responsabilidade dos seus autores, não significando que o Conselho esteja de acordo com as opiniões expostas.
É reservado ao CORECON-PR o direito de recusar textos que considere inadequados.
O Todo é o Meio Ambiente
26/02/2015
Marcus Eduardo de Oliveira
Escreve Andrei Cechin, em “A Natureza como Limite da Economia”, que “se a economia capta recursos de qualidade de uma fonte natural e devolve resíduos sem qualidade para a natureza, então não é possível tratar a economia como um ciclo isolado”.
Pelo pressuposto, a economia é apenas uma parte de um todo; o todo é o meio ambiente. Logo, não há como escapar da seguinte ponderação: à medida que acontece o crescimento econômico exponencial se dilapidam as bases da natureza, resultando em sensível diminuição do meio ambiente, agravando substancialmente os fundamentos naturais da vida.
Reforça-se assim a prerrogativa de que mais crescimento significa menos meio ambiente, tendo em vista que a biosfera é finita, não cresce (e jamais irá crescer), além de ser fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) funcionando regiamente sob as leis da termodinâmica.
Sintomaticamente, mais crescimento econômico responde pela exaustão dos recursos naturais e energéticos e pela depredação dos serviços ecossistêmicos.
Assim, é limitada a capacidade de o ecossistema terrestre suportar as pressões advindas do crescimento econômico. Os limites biofísicos constrangem o sistema econômico que, por sua vez, irrompe-se com força destrutiva, expondo o meio ambiente em constante degradação, comprometendo a capacidade de a vida humana prosperar com o equilíbrio desejável.
É necessário, por oportuno, não perder de vista que os recursos naturais são, essencialmente, um conjunto de matéria e energia de qualidade atuando (entrando) no processo econômico.
Na saída desse “cano econômico”, para usar aqui uma expressão do professor Clóvis Cavalcanti, sobra resíduo, poluição, calor e matéria dissipada. Do ponto de vista físico, o processo econômico não cria matéria e energia.
A questão ecológica mais preocupante está justamente no impacto dessa ação (a retirada de recursos naturais e a entrega de resíduos pós-produção) gerada pela atividade econômica.
Esse resíduo gerado deteriora o ambiente de várias maneiras: quimicamente, como no caso do mercúrio ou da chuva ácida; nuclearmente, como o lixo radioativo; ou fisicamente, como a acumulação de CO2 na atmosfera.
Razão pela qual o crescimento econômico – pelas bases da expansão da capacidade produtiva – entendido como condição para satisfazer as necessidades humanas, precisa urgentemente ser repensado, até mesmo porque o crescimento, per si, não atende em linhas gerais aos desejos ilimitados das pessoas.
Seguindo essa linha, o desenvolvimento humano (melhoria da qualidade de vida) dependerá, pois, da retração econômica, e não de seu crescimento. Ademais, qualquer subsistema – como é o caso da economia -, em algum momento necessariamente deve parar de crescer e adaptar-se a uma taxa de equilíbrio natural.
Posto isto, a economia tradicional precisa aceitar um fato inexorável: é impossível um crescimento ilimitado num sistema que depende da existência de recursos naturais finitos. Funda-se nesse argumento um fato imperioso: parar de crescer não significa parar de se desenvolver. É perfeitamente possível prosperar (se desenvolver) sem crescer; é factível, pois, avançar economicamente sem agredir o meio ambiente.
Por sinal, prosperidade econômica, em seu significado mais elementar, deve ser entendida como sinônimo de bem-estar, e não pode haver prosperidade – portanto, melhoria substancial na qualidade de vida das pessoas -, em ambientes constantemente expostos à degradação, reduzidos, por exemplo, à poluição decorrente da expansão produtiva que esgota o patrimônio natural (biomassa da floresta, fertilização do solo, disponibilidade de água, solo arável etc).
Decorre disso a necessidade de se promover a troca da busca incessante do crescimento (expansão quantitativa) pelo desenvolvimento (melhoria qualitativa).
Faz-se necessário, contudo, buscar um “novo modelo econômico” capaz de assegurar a preservação do espaço ecológico que responde pela continuidade da vida humana em bases mais sustentáveis, estando em conformidade com o conjunto teórico que embasa a Ciência Econômica – porém, com uma nova roupagem – voltada às ordens ecológicas, não às mercadológicas.
Para alcançar esse objetivo, é imprescindível condenar a busca pelo crescimento econômico exponencial que “passeia livremente” sobre as ruínas do capital natural (ar, floresta, solo, água) promovendo em seu rastro a mais agressiva destruição dos elementares serviços ecossistêmicos.
Faz-se oportuno ponderar que no linguajar dos economistas ecológicos crescimento econômico vai só até certo “ponto” (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse “ponto” não há melhorias, mas sim perdas significativas (crescimento deseconômico), começando pela qualidade do ar que respiramos e pela completa destruição do espaço natural, afetando substancialmente o que se convenciona entender por qualidade de vida nas cidades, uma vez que os serviços ecossistêmicos são expostos à dilapidação.
Crescimento além dos limites é sinônimo de vida degradada, de ambiente natural destruído. Que fique claro: todo e qualquer crescimento que se expande de forma incontrolável gera consequentemente desequilíbrios ao meio ambiente.
A expansão da atividade econômica, usada como paradigma de ascensão (progresso econômico) no modo de consumir das pessoas, alimentada pela ideologia da propaganda “compre mais”, consubstanciada na obsolescência programada (desgaste dos produtos de forma induzida cujo único objetivo é acelerar o tempo de rotação do capital “forçando” assim novas vendas), tem produzido muito estrago no tocante aos serviços prestados pela natureza, configurando na expressão máxima: mais economia significa menos meio ambiente. Já passou da hora de abandonar esse modelo.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor, com pós-graduação em Política Internacional e mestrado em Integração da América Latina (USP). prof.marcuseduardo@bol.com.br
Os artigos de economistas divulgados pelo CORECON-PR são da inteira responsabilidade dos seus autores, não significando que o Conselho esteja de acordo com as opiniões expostas.
É reservado ao CORECON-PR o direito de recusar textos que considere inadequados.
sexta-feira, 20 de março de 2015
domingo, 15 de março de 2015
sexta-feira, 13 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
FSP - Ilustrada - 03/03/2015 - Centenário de Vilanova Artigas é celebrado com filme, mostras e livros
Uma luz mais intensa brilha sobre o salão caramelo, o pátio central da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Removida a sujeira que pretejava as claraboias de sua cobertura, o edifício na Cidade Universitária voltou à forma no ano em que se celebra o centenário de seu arquiteto, João Batista Vilanova Artigas.
"É emocionante ver as linhas desse prédio", dizia Laura Artigas, neta do arquiteto, enquanto filmava a FAU para um documentário sobre o avô. "Quando a gente entra aqui, sente a escala de sua obra."
Morto há 30 anos, aos 69, o mestre do brutalismo paulista, estilo arquitetônico marcado pelo uso expressivo do concreto armado, chegaria a um século de vida em junho deste ano, quando será alvo de uma retrospectiva no Itaú Cultural, do filme de sua neta e de um livro de sua filha, a historiadora Rosa Artigas.
Sua obra também estará numa mostra sobre arquitetura latino-americana que será aberta no fim deste mês no MoMA, em Nova York, além de ser tema de um recente estudo do professor Miguel Antonio Buzzar, da USP.
Centenário de Vilanova Artigas
Mas para entender Artigas, que mesmo nascido em Curitiba se tornou um nome indissociável da paisagem paulistana, com obras como o estádio do Morumbi, o edifício Louveira e a garagem de barcos do antigo clube Santa Paula, na represa de Guarapiranga, talvez seja mais fácil passar uns minutos na FAU.

"É como se ali ele concebesse um mundo alternativo ao mundo real, entre o arcaico e o industrial", diz Buzzar. "Sua arquitetura é vigorosa e tem uma posição política. É a ideia de uma sociedade em que os espaços coletivos são mais importantes do que os individuais. Na época do golpe militar, seus edifícios surgiram como espaços de liberdade."
Paulo Mendes da Rocha, o maior discípulo de Artigas, estava com ele em 1964 quando ouviu pelo rádio que os militares tomavam o poder em Brasília. "Ele era comunista e tentou fugir", lembra. Artigas passou um mês na prisão em setembro do ano do golpe e depois se exilou no Uruguai, de onde voltou no ano seguinte.
Suas obras dos anos 1960, como a FAU e a garagem de barcos, são testamentos do auge de seu poder criativo. Além do uso do concreto, são construções marcadas pela articulação dos espaços em torno de um eixo central e a atenção à transparência, reforçando a sensação de que seus edifícios se entrelaçam com a paisagem ao redor.
"Na essência, a grande virtude do Artigas sempre foi a sabedoria de implantar seus prédios de tal forma que o espaço é livre", diz o arquiteto Eduardo Rodrigues, que foi aluno de Artigas. "Seus espaços nunca são contingenciados, constrangidos."
É o que Mendes da Rocha chama de "êxito da técnica". "Uma construção precisa antes de tudo ser brilhante do ponto de vista estrutural. Essa é a beleza", diz o vencedor do Pritzker, maior prêmio da arquitetura. "É como as colunas de um templo ou pedras de uma catedral. Sem geometria, nada fica de pé."
Porta dos Fundos
Também ancorada na beleza da geometria, a garagem de barcos de Artigas, hoje em ruínas, é um dos melhores exemplos de sua busca obsessiva pela perfeição estrutural, com uma laje que desliza sobre pontos de apoio móveis quando se expande ou contrai com as oscilações na temperatura.
"Tem essa sutileza", diz Marco Artigas, neto do arquiteto. "É monumental, mas tem uma escala humana."
Enquanto o atual proprietário da garagem estuda planos para transformar o espaço num restaurante, a família do arquiteto tenta preservar o resto de seu legado doando seus desenhos e projetos à FAU.
Uma parte dessa memória também estará no livro que sua filha, Rosa Artigas, lança em junho. "Muitos dos seus edifícios estão em ruínas", diz ela. "O livro vai mostrar como a arquitetura entra para a história pela porta dos fundos."
"É emocionante ver as linhas desse prédio", dizia Laura Artigas, neta do arquiteto, enquanto filmava a FAU para um documentário sobre o avô. "Quando a gente entra aqui, sente a escala de sua obra."
Morto há 30 anos, aos 69, o mestre do brutalismo paulista, estilo arquitetônico marcado pelo uso expressivo do concreto armado, chegaria a um século de vida em junho deste ano, quando será alvo de uma retrospectiva no Itaú Cultural, do filme de sua neta e de um livro de sua filha, a historiadora Rosa Artigas.
Sua obra também estará numa mostra sobre arquitetura latino-americana que será aberta no fim deste mês no MoMA, em Nova York, além de ser tema de um recente estudo do professor Miguel Antonio Buzzar, da USP.
Centenário de Vilanova Artigas
Mas para entender Artigas, que mesmo nascido em Curitiba se tornou um nome indissociável da paisagem paulistana, com obras como o estádio do Morumbi, o edifício Louveira e a garagem de barcos do antigo clube Santa Paula, na represa de Guarapiranga, talvez seja mais fácil passar uns minutos na FAU.
"É como se ali ele concebesse um mundo alternativo ao mundo real, entre o arcaico e o industrial", diz Buzzar. "Sua arquitetura é vigorosa e tem uma posição política. É a ideia de uma sociedade em que os espaços coletivos são mais importantes do que os individuais. Na época do golpe militar, seus edifícios surgiram como espaços de liberdade."
Paulo Mendes da Rocha, o maior discípulo de Artigas, estava com ele em 1964 quando ouviu pelo rádio que os militares tomavam o poder em Brasília. "Ele era comunista e tentou fugir", lembra. Artigas passou um mês na prisão em setembro do ano do golpe e depois se exilou no Uruguai, de onde voltou no ano seguinte.
Suas obras dos anos 1960, como a FAU e a garagem de barcos, são testamentos do auge de seu poder criativo. Além do uso do concreto, são construções marcadas pela articulação dos espaços em torno de um eixo central e a atenção à transparência, reforçando a sensação de que seus edifícios se entrelaçam com a paisagem ao redor.
"Na essência, a grande virtude do Artigas sempre foi a sabedoria de implantar seus prédios de tal forma que o espaço é livre", diz o arquiteto Eduardo Rodrigues, que foi aluno de Artigas. "Seus espaços nunca são contingenciados, constrangidos."
É o que Mendes da Rocha chama de "êxito da técnica". "Uma construção precisa antes de tudo ser brilhante do ponto de vista estrutural. Essa é a beleza", diz o vencedor do Pritzker, maior prêmio da arquitetura. "É como as colunas de um templo ou pedras de uma catedral. Sem geometria, nada fica de pé."
Porta dos Fundos
Também ancorada na beleza da geometria, a garagem de barcos de Artigas, hoje em ruínas, é um dos melhores exemplos de sua busca obsessiva pela perfeição estrutural, com uma laje que desliza sobre pontos de apoio móveis quando se expande ou contrai com as oscilações na temperatura.
"Tem essa sutileza", diz Marco Artigas, neto do arquiteto. "É monumental, mas tem uma escala humana."
Enquanto o atual proprietário da garagem estuda planos para transformar o espaço num restaurante, a família do arquiteto tenta preservar o resto de seu legado doando seus desenhos e projetos à FAU.
Uma parte dessa memória também estará no livro que sua filha, Rosa Artigas, lança em junho. "Muitos dos seus edifícios estão em ruínas", diz ela. "O livro vai mostrar como a arquitetura entra para a história pela porta dos fundos."
domingo, 1 de março de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Leonardo Boff - O bem comum foi enviado ao limbo - 12/02/2015
O bem comum foi enviado ao limbo - 12/02/2015
As atuais discussões políticas no Brasil em meio a uma ameaçadora crise hídrica e energética se perdem nos interesses particulares de cada partido. Há uma tentativa articulada pelos grupos dominantes, por detrás dos quais se escondem grandes corporações nacionais e multinacionais, a midia corporativa e, seguramente, a atuação do serviços de segurança do Império norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff. Não se trata apenas de uma feroz critica às políticas oficiais mas há algo mais profundo em ação: a vontade de desmontar e, se possível, liquidar o PT que representa os intersses das populações que historicamente sempre foram marginalizadas. Custa muito às elites conservadores aceitarem o novo sujeito histórico – o povo organizado e sua expressão partidária – pois se sentem ameaçadas em seus privilégios. Como são notoriamente egoistas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em tirar da cena essa força social e política que poderá mudar irreversivelmente o destino do Brasil.
Estamos esquecendo que a essência da política é a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladaores do capitalismo globalizado e de sua ideologia, o neo-liberalismo, é a demolição da noção de bem comum ou de bem-estar social. Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre três pilastras fundamentais: a participação (cidadania), a cooperação societária e respeito aos direitos humanos. Juntas criam o bem comum. Mas este foi enviado ao limbo da preocupação política. Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituida pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competição.
A participação, a cooperação e os direitos asseguravam a existência de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu salário, o seu carro, a sua família. Impera o individualismo, o maior inimigo da convivência social. Ninguém é levado, portanto, a construir algo em comum. A única coisa em comum que resta, é a guerra de todos contra todos em vista da sobrevivência individual.
Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revista Science (15/01/2015) 18 cientistas elencaram os nove limites planetários (Planetary Bounderies), quatro dos quais já ultrapassados: o clima, ia ntegridade da biosfera, o uso da solo, os fluxos biogeoquímicos( fósforo e nitrogênio). Os outros encontram-se em avançado grau de erosão. Só a ultrapassagem desses quatro, pode tornar a Terra menos hospitaleira para milhões de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial está enfrentando essa situação que detrói o bem comum planetário?
Quem cuidará do interesse geral de mais de sete bilhões de pessoas? O neoliberalismo é surdo, cego e mudo a esta questão fundamental como o tem repetido como um ritornello o Papa Francisco. Seria contraditório suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo defende concepções políticas e sociais diretamente opostas ao bem comum. Seu propósito básico é: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Pois é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar social.
Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta das lógicas excludentes e predadoras da atual globalização competitiva, liberalizadora, desregulamentora e privatizadora. Quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty, O Capitalismo no século XXI quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades. É o triunfo do killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie aguenta o espírito? A Grécia veio mostrar que não aguenta mais. Recusa-se a aceitar do diktat dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela França de Hollande.
Resumindo: que é o bem comum? No plano infra-estrutural é o acesso justo de todos à alimentação,à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à cultura. No plano social e cultural é o reconhecimento, o respeito e a convivência pacífica. Pelo fato de sob a globalização competitiva foi desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição. Sem essa mudança, dificilmente se manterá a comunidade humana unida e com um futuro bom.
Ora, essa reconstrução constitui o núcleo do projeto político do PT originário e de seus afins ideológicos. Entrou pela porta certa: Fome Zero depois transformada em várias políticas públicas de cunho popular. Tentou colocar um fundamento seguro: a repactuação social a partir dos valores da cooperação e a boa-vontade de todos. Mas o efeito foi fraco, dada a nossa tradição individualista a patrimonialista.
Mas no fundo vigora esta convicção humanística de base: não há futuro a longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justiça, de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos básicos, de cuidado pelos bens naturais e de cooperação. Ela nega o anseio mais originário do ser humano desde que emergiu na evolução, milhões de anos atrás. Quer queiramos ou não, mesmo admitindo erros e corrupção, o melhor do PT articulou e articula esse anseio ancestral. É a partir daí que pode se resgatar, se renovar e alimentar sua força convocatória. Se não for o PT serão outros atores em outros tempos que o farão.
Cooperação se reforça com cooperação que devemos oferecer incondicionalmente.Sem isso viveremos numa sociedade que perdeu sua altura humana e regride ao regime dos chimpanzés.
Leonardo Boff é colunista do JBonline, teólogo, filósofo e escritor
As atuais discussões políticas no Brasil em meio a uma ameaçadora crise hídrica e energética se perdem nos interesses particulares de cada partido. Há uma tentativa articulada pelos grupos dominantes, por detrás dos quais se escondem grandes corporações nacionais e multinacionais, a midia corporativa e, seguramente, a atuação do serviços de segurança do Império norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff. Não se trata apenas de uma feroz critica às políticas oficiais mas há algo mais profundo em ação: a vontade de desmontar e, se possível, liquidar o PT que representa os intersses das populações que historicamente sempre foram marginalizadas. Custa muito às elites conservadores aceitarem o novo sujeito histórico – o povo organizado e sua expressão partidária – pois se sentem ameaçadas em seus privilégios. Como são notoriamente egoistas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em tirar da cena essa força social e política que poderá mudar irreversivelmente o destino do Brasil.
Estamos esquecendo que a essência da política é a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladaores do capitalismo globalizado e de sua ideologia, o neo-liberalismo, é a demolição da noção de bem comum ou de bem-estar social. Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre três pilastras fundamentais: a participação (cidadania), a cooperação societária e respeito aos direitos humanos. Juntas criam o bem comum. Mas este foi enviado ao limbo da preocupação política. Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituida pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competição.
A participação, a cooperação e os direitos asseguravam a existência de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu salário, o seu carro, a sua família. Impera o individualismo, o maior inimigo da convivência social. Ninguém é levado, portanto, a construir algo em comum. A única coisa em comum que resta, é a guerra de todos contra todos em vista da sobrevivência individual.
Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revista Science (15/01/2015) 18 cientistas elencaram os nove limites planetários (Planetary Bounderies), quatro dos quais já ultrapassados: o clima, ia ntegridade da biosfera, o uso da solo, os fluxos biogeoquímicos( fósforo e nitrogênio). Os outros encontram-se em avançado grau de erosão. Só a ultrapassagem desses quatro, pode tornar a Terra menos hospitaleira para milhões de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial está enfrentando essa situação que detrói o bem comum planetário?
Quem cuidará do interesse geral de mais de sete bilhões de pessoas? O neoliberalismo é surdo, cego e mudo a esta questão fundamental como o tem repetido como um ritornello o Papa Francisco. Seria contraditório suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo defende concepções políticas e sociais diretamente opostas ao bem comum. Seu propósito básico é: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Pois é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar social.
Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta das lógicas excludentes e predadoras da atual globalização competitiva, liberalizadora, desregulamentora e privatizadora. Quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty, O Capitalismo no século XXI quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades. É o triunfo do killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie aguenta o espírito? A Grécia veio mostrar que não aguenta mais. Recusa-se a aceitar do diktat dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela França de Hollande.
Resumindo: que é o bem comum? No plano infra-estrutural é o acesso justo de todos à alimentação,à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à cultura. No plano social e cultural é o reconhecimento, o respeito e a convivência pacífica. Pelo fato de sob a globalização competitiva foi desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição. Sem essa mudança, dificilmente se manterá a comunidade humana unida e com um futuro bom.
Ora, essa reconstrução constitui o núcleo do projeto político do PT originário e de seus afins ideológicos. Entrou pela porta certa: Fome Zero depois transformada em várias políticas públicas de cunho popular. Tentou colocar um fundamento seguro: a repactuação social a partir dos valores da cooperação e a boa-vontade de todos. Mas o efeito foi fraco, dada a nossa tradição individualista a patrimonialista.
Mas no fundo vigora esta convicção humanística de base: não há futuro a longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justiça, de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos básicos, de cuidado pelos bens naturais e de cooperação. Ela nega o anseio mais originário do ser humano desde que emergiu na evolução, milhões de anos atrás. Quer queiramos ou não, mesmo admitindo erros e corrupção, o melhor do PT articulou e articula esse anseio ancestral. É a partir daí que pode se resgatar, se renovar e alimentar sua força convocatória. Se não for o PT serão outros atores em outros tempos que o farão.
Cooperação se reforça com cooperação que devemos oferecer incondicionalmente.Sem isso viveremos numa sociedade que perdeu sua altura humana e regride ao regime dos chimpanzés.
Leonardo Boff é colunista do JBonline, teólogo, filósofo e escritor