Ecologia hoje: uma aposta pela vida
28/09/2015
Há poucos pensadores no campo da ecologia que tentam ir às raízes da atual crise ecológica global. Um dos mais renomados é seguramente o mexicano Enrique Leff com seu mais recente livro: A aposta pela vida: imaginação sociológica e imaginários sociais nos territórios ambientais do Sul “(a sair pela Vozes). Além de professor e pesquisador, foi por vários anos o Coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e o Caribe no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Acumulou muitas experiências que serviram e servem de base para a sua produção intelectual.
Dá ênfase à preocupação
filosófico-social, pois seu interesse é decifrar os mecanismos que nos levaram
à atual crise e como poderemos sair bem dela. Portanto, estuda as causas
metafísicas (a concepção do ser e da realidade) e epistemológicas (os modos de
conhecimento) em suas diversas ontologias (determinações sociais, políticas,
culturais e do mundo da vida, entre outras).
Procede a um detalhado trabalho
de reconstrução da ecologia social e da ecologia política: como surgiram e
evoluiram face à crescente crise ecológica, especialmente ao aquecimento
global. Essa parte é relevante para quem quiser conhecer os meandros dos
discurso ecológico em suas diferentes tendências.
A pergunta que atravessa todo
seu texto, denso, rico em referências bibliográficas de várias ciências e
tendências, se concentra nesta questão: como estabelecer as condições adequadas
à vida num mundo feito insustentável?
A resposta demanda duas tarefas:
A primeira é a demolição dos
pressupostos equivocados da modernidade com sua racionalidade
tecnico-científica-utilitarista e vontade de dominação de tudo: de territórios,
de povos, da natureza e dos processos da vida; realiza esta diligência com uma
argumentação cerrada, citando as autoridades filosóficas e científicas mais
sérias, sempre salvaguardando o que é irrenunciável mas denunciando como esse
tipo exacerbado de racionalidade levou a uma crise civilizatória global com
processos insustentáveis e hostis à vida, podendo levar, em seu termo final, a
um colapso de nossa civilização.
A segunda consiste na criação de
uma nova consciência e o sentido de um destino comum Terra-Natureza-Humanidade.
É a parte mais criativa. Auxilia-o a teoria da complexidade e do caos; discute
o sentido da sustentabilidade como princípio de vida e de imperativo da
sobrevivência.
Interroga as várias teorias do surgimento da vida e sustenta a
tese de F. Capra segundo o qual a vida se originaria do metabolismo entre
matéria e energia, gerando redes autogenerativas que liberam os fluxos da vida.
Detalha os diferentes modos de
se reconstruir e de se apropriar da natureza, respeitando seus ritmos e ciclos.
Contrariando o paradigma vigente
de apropriação privada da natureza e dos fluxos vitais em função do
enriquecimento, sabendo apenas modernizar sem ecologizar os saberes, postula
vários imaginários alternativos de organizar a Casa Comum, consoante as
diferentes culturas nas quas a identidade e a diferença são trabalhdas de forma
integradora. Valoriza especialmente a contribuição andina do “bien vivir”. Mais
que uma filosofia de vida é uma metáfora de um mundo em harmonia com o Todo. O
sumak kawsai (bien vivir) engloba práticas sociais nas quais se expressam as
relações dos povos com o cosmos, com seu território, seus ecossitemas, suas
culturas e suas relações sociais.
A parte final nos comunica
grande esperança: o crescimento a nivel mundial através de incontáveis
movimentos e experiências locais que revelam a capacidade das populações de
resistir à razão econômica, instrumental e utilitarista vigente. Os países
centrais que já exploraram praticamente quase todos os seus serviços e bens
naturais tentam recolonizar especialmente a América Latina para que seja uma
reserva destes bens para eles. Na nossa visão latino-americana, tais “bondades
da natureza” como dizem os povos originários, constituem a base para os
direitos da natureza e da Terra tida como a Pachamama, para os direitos
culturais e ambientais que concretizam outras formas de habitar a Casa Comum e
de se beneficiar de tudo o que ela nos oferece para viver em harmonia.
Aqui se revela uma nova aposta
pela vida, que não a ameaça, mas dela cuida, cria-lhe as condições de sua
permanência sobre a face da Terra e lhe garante as condições de co-evoluir e
constituir-se num bem a ser herdado pelas gerações que virão depois de nós.
Este livro de Leff é um alento
para aqueles que uma vez despertaram para a crise ecológica, não se resignam
diante das estratéigas de dominação dos poderosos, mas resitem e ensaiam novas
formas de convivência, de produção, de consumo e de cuidado e respeito para com
todos os seres especialmente pela grande e generosa Mãe Terra.
É um livro necessário que vai na
linha exposta com grande força pelo Papa Francisco em sua encíclica sobre “o
cuidado da Casa Comum.
Leonardo Boff é colunista do
JB on line e escreveu: Ecologia:grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 2002.